LEITURA DELEITE: A mãe nevada
- parceriapedagogica
- 21 de abr.
- 4 min de leitura

(Irmãos Grimm — reescrita em linguagem atual)
Muito tempo atrás, em um lugar distante, vivia uma viúva com duas filhas. Uma delas era sua filha legítima: mimada, preguiçosa e acostumada a não fazer nada. A outra, sua enteada, era exatamente o oposto — dedicada, trabalhadora e sempre disposta a ajudar. Enquanto a filha da viúva era tratada com todo o carinho, a enteada era vista como a criada da casa. Era ela quem fazia todo o serviço doméstico, do amanhecer ao anoitecer.
Além disso, todos os dias a jovem se sentava à beira de um poço, à margem da estrada, com seu fuso, passando horas a fiar. Trabalhava tanto que seus dedos acabavam feridos e sangrando.
Certo dia, ao tentar lavar no poço o fuso manchado de sangue, ele escorregou de suas mãos e caiu na água, desaparecendo no fundo. Desesperada, a moça voltou chorando para casa e contou o ocorrido à madrasta. A reação foi imediata e cruel:
— O quê?! Deixou o fuso cair no poço? Então vá buscá-lo, sua desastrada!
Sem saber como recuperar o objeto, a garota retornou ao poço. O desespero foi tão grande que, numa tentativa impensada, atirou-se na água. Logo perdeu os sentidos.
Quando despertou, estava deitada em meio a uma campina verdejante, coberta por flores coloridas que brilhavam sob o sol. Levantou-se, confusa, e começou a caminhar. Logo encontrou um forno repleto de pães que gritavam aflitos:
— Tire-nos daqui! Tire-nos daqui! Já estamos assados e vamos queimar!
Sem hesitar, a moça pegou a pá de padeiro que estava ali e retirou, um a um, todos os pães do forno.
Seguindo adiante, encontrou uma macieira carregada de frutos maduros, que lhe pediu:
— Sacuda-me! Sacuda-me! Minhas maçãs estão maduras e pesadas demais!
A jovem sacudiu a árvore com força, até que todas as maçãs caíram no chão. Depois, juntou-as com cuidado e seguiu seu caminho.
Pouco depois, chegou a uma pequena casa. Na janela, apareceu uma velha de aparência assustadora, com dentes enormes. Assustada, a moça tentou fugir, mas a mulher a chamou com uma voz surpreendentemente gentil:
— Menina, volte aqui! Não tenha medo. Fique comigo. Se me ajudar a cuidar da casa e fizer tudo com atenção, viveremos muito bem juntas. Só peço uma coisa: quando arrumar minha cama, sacuda bem o colchão, até as penas voarem. Quando isso acontece, neva no mundo dos homens. Eu sou a Mãe Nevada.
A voz acolhedora tranquilizou a jovem, que aceitou a proposta. Desde o primeiro dia, trabalhou com dedicação e capricho. Todas as manhãs sacudia o colchão com tanta força que as penas voavam pelo ar como flocos de neve. A Mãe Nevada nunca foi rude com ela, nunca a repreendeu, e sempre lhe ofereceu comida farta, quente e saborosa.
Assim, a moça viveu feliz por algum tempo. Até que, certo dia, um sentimento estranho começou a crescer dentro dela. Era saudade. Sentia falta de casa. Mesmo sabendo que ali vivia muito melhor do que com a madrasta, decidiu retornar.
— Senhora Mãe Nevada — disse ela —, estou com muita saudade de casa. Apesar de todo o sofrimento que vivi lá, desejo voltar.
— Fico contente em saber que sente saudades dos seus — respondeu a velha. — E, como você me serviu com tanta dedicação e cuidado, eu mesma a levarei de volta.
A Mãe Nevada pegou a mão da jovem e conduziu-a até uma enorme porta, que se abriu de repente.
Assim que cruzou a soleira, uma chuva dourada caiu sobre ela, cobrindo-a inteira de ouro.
— Este é um presente meu — disse a velha. — Você merece.
Em seguida, entregou-lhe o fuso que havia caído no poço e fechou a porta.
A moça percebeu, então, que estava novamente em seu mundo — e não muito longe de casa. Ao chegar ao quintal, um galo empoleirado no poço cantou alto:
— Quiquiriqui! Olhem só quem chegou! Nossa mocinha de ouro, que vale mais do que um tesouro!
A madrasta e a filha saíram para ver o que acontecia. Ao verem a jovem coberta de ouro, receberam-na com entusiasmo. Ela contou tudo o que havia vivido no fundo do poço. Ao ouvir a história, a madrasta logo decidiu que sua filha também deveria tentar a mesma sorte.
Assim, a moça preguiçosa foi levada ao poço com um fuso. Como não queria fiar por muito tempo, picou o dedo com um espinho, sujou o fuso de sangue e o lançou na água, jogando-se em seguida atrás dele.
Como aconteceu com a irmã, acordou na mesma campina florida e seguiu o mesmo caminho. Ao passar diante do forno, os pães imploraram:
— Tire-nos daqui! Já estamos assados!
— Nem pensar! — respondeu ela. — Não vou me sujar de farinha!
Mais à frente, a macieira pediu ajuda:
— Sacuda-me! Meus frutos estão maduros!
— Você acha que quero maçãs caindo na minha cabeça? — retrucou a moça, sem parar.
Por fim, chegou à casa da Mãe Nevada. Como já sabia da aparência da velha, não se assustou e aceitou ficar. No primeiro dia, trabalhou direitinho, pensando apenas no ouro que receberia. No segundo, foi relaxando. No terceiro, acordou tarde, deixou a cama mal feita e sacudiu o colchão tão mal que quase nenhuma pena voou.
A Mãe Nevada, então, perdeu a paciência e decidiu mandá-la embora. Conduziu-a até a grande porta e abriu-a. A jovem, confiante, parou na soleira esperando a chuva de ouro. No entanto, em vez disso, um caldeirão cheio de piche caiu sobre ela, cobrindo-a inteira.
Foi assim, suja e lambuzada, que voltou para casa. Ao vê-la chegar, o galo cantou:
— Quiquiriqui! Olhem quem chegou! Nossa garota imunda, mais suja do que nunca!
O piche custou tanto a sair da pele, que durante muitos meses a moça sequer pôde sair de casa.




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